-

24/09/2024
Leia João 16.1-7
Os versículos iniciais desse capítulo apresentam três declarações do Senhor Jesus que merecem especial atenção.
Em primeiro lugar, vemos nosso Senhor proclamando uma profecia notável ao afirmar que os discípulos seriam rejeitados, perseguidos e mortos pelos líderes judeus: "Eles vos expulsarão das sinagogas; mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus".
À primeira vista, essa afirmação parece bem estranha. Exclusão, sofrimento e morte foram as coisas que o Príncipe da Paz antecipou aos seus discípulos. Em vez de serem aceitos com gratidão e as pessoas darem crédito à sua mensagem, os discípulos seriam odiados, maltratados com desprezo e mortos pelo mundo. E, pior do que tudo isso, seus perseguidores convenceriam a si mesmos de que era correto persegui-los e infligir-lhes as mais cruéis afrontas, em nome da religião.
Essa profecia se realizou com toda a veracidade. Assim como todas as demais profecias das Escrituras, esta se cumpriu palavra por palavra. Os Atos dos Apóstolos nos mostram como os judeus incrédulos perseguiram a Igreja primitiva. As páginas da história revelam os terríveis crimes praticados pela Inquisição. As crônicas da Europa mostram como os piedosos reformadores foram queimados, devido às suas convicções espirituais, por homens que declaravam fazer tudo que podiam, motivados por seu zelo em favor da pureza do cristianismo. Ainda que parecesse impossível e inacreditável naquela ocasião, o grande Profeta da Igreja comprovou sua autenticidade no fato de que, assim como em todas as suas outras afirmações, ele predisse nada mais do que a verdade.
Não devemos ficar surpresos ao ouvir que os crentes são perseguidos, de uma maneira ou de outra, em nossos dias. A natureza humana continua a mesma. A graça divina nunca foi realmente popular. Se os verdadeiros filhos de Deus confessam Jesus como Senhor, a intensidade de perseguição que eles têm de sofrer mesmo agora, nas diversas áreas de suas vidas, é maior do que as pessoas do mundo imaginam. Somente conhecem a natureza da perseguição aqueles que a vivenciam, na escola, no trabalho, em casa etc. "Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos" (2Tm 3.12).
Nunca esqueçamos: a sinceridade nas coisas espirituais não comprova que uma pessoa é um verdadeiro cristão. O zelo sem conhecimento é incorreto. Ninguém é tão iludido quanto a pessoa zelosa que não possui verdadeiro conhecimento. Nem toda sinceridade é digna de confianca. Sem a orientação do Espírito Santo, a sinceridade pode conduzir uma pessoa para tão longe de Deus que, assim como Saulo de Tarso, perseguirá o próprio Senhor Jesus Cristo. Algumas pessoas sinceras e dedicadas imaginam que estão fazendo a obra de Deus, quando, na realidade, estão lutando contra a verdade e perseguindo o povo dele. Oremos para ser zelosos, mas, igualmente, para ter discernimento.
Em segundo lugar, vemos nosso Senhor explicando seu motivo especial para anunciar não somente essa profecia, mas todo o seu discurso. Ele afirmou: "Tenho-vos dito estas coisas para que não vos escandalizeis".
Nosso Senhor sabia que nada é mais prejudicial ao nosso crescimento espiritual do que nutrir falsas esperanças. Por isso, preparou seus discípulos para o que teriam de enfrentar ao servirem a ele. Os discípulos foram equipados e avisados de antemão! Não poderiam esperar tranquilidade ou quietude em sua jornada. Precisavam estar decididos a passar por conflitos, adversidades, oposição, perseguições e, talvez, morte. À semelhança de um sábio general, o Senhor Jesus não ocultou de seus soldados a natureza da campanha que estavam começando. Com fidelidade e amor, mostrou-lhes tudo que os aguardava, para que, ao se defrontarem com a perseguição, lembrassem suas palavras e não desanimassem nem se escandalizassem. Com sabedoria, ele lhes avisou de antemão que a cruz era o caminho para a coroa.
Em todas as épocas, um dos primeiros deveres do crente é calcular o custo de seguir a Cristo. Não existe qualquer bondade em retratar com falsas cores aos novos convertidos o cristianismo e ocultar-lhes a verdade: "Através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus". Pregar doutrinas agradáveis e clamar "Paz, paz!" podem trazer para as fileiras do exército de Cristo muitos soldados falsos. Mas esses são apenas soldados que, à semelhança dos ouvintes comparados ao solo rochoso, retrocederão no dia da batalha. Não se encontra em um estado espiritual saudável o crente que não está preparado para enfrentar tribulações e perseguição. Se alguém espera atravessar as águas turbulentas deste mundo e chegar ao céu, tendo a maré e o vento sempre a seu favor, tal pessoa realmente não sabe tanto quanto deveria saber. Nunca podemos afirmar com certeza aquilo que nos espera nos dias por vir. No entanto, podemos estar certos disto: se desejamos receber a coroa, temos de levar a cruz. Guardemos firmemente em nossos corações esse princípio e nunca o esqueçamos. Então, quando as provações nos alcançarem, não ficaremos escandalizados.
Por último, vemos nosso Senhor explicando por que convinha que deixasse seus discípulos. Ele lhes declarou: "Se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei". Com razão, podemos imaginar que nosso gracioso Senhor percebeu ficarem perturbadas as mentes de seus discípulos diante da ideia de que ele os deixaria. Embora não tenham compreendido todo o significado das palavras de Jesus, como em outras ocasiões, evidentemente eles tiveram uma vaga noção de que seu Todo-poderoso Amigo estava prestes a deixá-los, na condição de órfãos, em um mundo insensível e cruel. Seus corações esmoreceram e desanimaram. Com bastante graça, nosso Senhor os fortaleceu com palavras que transmitiam um significado profundo e complexo. Jesus lhes disse que sua partida, embora parecesse resultar em tristeza, seria boa para eles, e não ruim. Descobririam que não haveria perda, mas, sim, ganho. A ausência física do Senhor Jesus seria mais benéfica do que sua presença.
Não podemos negar que é difícil assimilar essa afirmação. À primeira vista, parece incompreensível como, em certo sentido, seria bom que Jesus deixasse seus discípulos. Porém, um pouco de reflexão pode mostrar que, assim como outras palavras de Jesus, essa notável explicação era correta e verdadeira. De qualquer maneira, as seguintes observações merecem nossa atenção Se Cristo não tivesse sido morto, ressuscitado e ascendido ao céus, é claro que o Espírito Santo não poderia ter vindo com poder especial sobre os discípulos, no dia de Pentecostes, para outorgar diferentes dons à Igreja. Ainda que esse fato seja misterioso, nos eternos conselhos de Deus existe uma conexão entre a ascensão de Cristo e o derramamento do Espírito.
Se Cristo tivesse permanecido fisicamente com seus discípulos, não poderia ficar em muitos lugares ao mesmo tempo. A presença do Espírito, que Jesus enviaria, encheria todos os lugares onde os crentes estivessem reunidos em seu nome, em todas as partes do mundo.
Se Cristo tivesse permanecido na terra e não ascendesse aos céus, não poderia ter-se tornado Sumo Sacerdote para seu povo de uma maneira tão plena e completa quanto após sua ascensão. Em sua natureza humana glorificada, o Senhor Jesus subiu ao céu e assentou-se à direita de Deus, para estar diante dele como nosso Advogado. E, se Cristo tivesse permanecido fisicamente com seus discípulos, não haveria muito exercício da fé, esperança e confianca, tal como houve desde que ele ascendeu à glória. As virtudes dos discípulos não teriam sido tão exercitadas, e poucas oportunidades eles teriam desfrutado para glorificar a Deus e manifestar seu poder no mundo. Acima de tudo, permanece o fato de que o Senhor Jesus subiu aos céus e o Espírito Santo foi enviado no dia de Pentecostes; a partir de então, a vida espiritual dos discípulos tornou-se completamente nova. O conhecimento deles foi ampliado; sua fé, esperança, zelo e coragem mostraram-se superiores aos de suas vidas antes daquele dia. Fizeram mais por Cristo, estando ele ausente, do que enquanto esteve presente entre eles na terra. Que prova maior podemos desejar de que era conveniente que seu Senhor os deixasse?
Devemos concluir nossas considerações sobre essa passagem com uma profunda convicção de que a presença do Espírito Santo em nossos corações é essencial para desfrutarmos de um elevado nível de vida cristã, mais essencial do que a própria presenca física de Jesus entre nós. Todos nós devemos ter intenso desejo não por sua presença física, para o tocarmos ou conversarmos com ele, mas, sim, por sua habitação em nossos corações pela virtude do Espírito Santo.
Leituras diárias compiladas para o Ministério das Mulheres IESBR por Sónia Ramos
Comments